OPINIÃO | Caso Cão Orelha: que tipo de líder nasce quando ninguém aprende que todo ato tem consequência?

Quando uma sociedade começa a relativizar pequenos atos de crueldade, ela treina o olhar para tolerar coisas maiores


Manifestação na Avenida Paulista em repúdio a morte do cão Orelha, no estado de Santa Catarina, decorrente da ação covarde de quatro adolescentes que bateram no animal. | 📷 Tiago Queiroz/Estadão

Tem histórias que não pedem debate. Pedem silêncio e reflexão.

O assassinato do cachorro Orelha, em Florianópolis, não me chocou só pela violência do ato. Me chocou pelo que veio depois. Pela tentativa de normalizar, minimizar e proteger, como se fosse um excesso isolado, algo administrável.

Quando a reação ao erro é mais preocupada com imagem do que com responsabilidade, o problema deixa de ser o ato em si. Ele passa a ser o que esse comportamento revela.

O que aconteceu com o Orelha não foi um acidente. Foi crueldade. E crueldade gratuita nunca é um episódio solto. Ela é um sinal claro de ausência de empatia. Isso é amplamente estudado. Quem consegue rir, filmar ou se vangloriar de uma violência desse tipo já perdeu referências básicas de limite.

Mas o que mais me incomoda nesse caso não é só o que foi feito com o cachorro. É o entorno. Adultos tentando calar testemunhas. Influência sendo usada como escudo. Famílias tratando tudo como um problema de imagem, e não de caráter.

Quando o erro não tem consequência, ele deixa de ser exceção. Ele vira padrão.

E aqui eu quero tocar num ponto sensível, mas necessário. Pais são líderes. São os primeiros líderes que alguém conhece na vida. E liderança não é proteção cega. Liderança é limite. É correção. É assumir que educar também frustra.

Quando pais usam poder, dinheiro ou influência para blindar erros graves dos filhos, eles não estão protegendo. Estão ensinando. Estão ensinando que consequências podem ser negociadas. Que responsabilidade é opcional. Que o mundo deve se adaptar ao erro, e não o contrário.

Isso não forma filhos fortes. Forma adultos perigosos. Porque quem cresce sem ouvir “não” cresce achando que tudo pode, inclusive o que não deveria.

Líderes ruins não surgem prontos. Eles são formados.

A gente já viu isso acontecer no mundo real, inclusive no mercado norte-americano. O caso da Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, é um exemplo claro disso.

A Theranos foi apresentada como uma revolução na área de saúde, chegou a ser avaliada em cerca de US$ 9 bilhões, atraiu grandes investidores, executivos experientes e parcerias de peso nos Estados Unidos. Mas por trás da narrativa, havia mentiras, manipulação e desprezo total pelas consequências.

Durante anos, alertas foram ignorados. Questionamentos foram silenciados. Funcionários que tentaram falar foram pressionados. O resultado foi um dos maiores escândalos corporativos do mercado norte-americano, com centenas de milhões de dólares em prejuízo direto para investidores, além de danos reais a pacientes, funcionários e à credibilidade de todo um setor.

O problema nunca é só o líder. É o entorno que aplaude. É quem passa pano. É quem escolhe não ver.

Quando uma sociedade começa a relativizar pequenos atos de crueldade, ela treina o olhar para tolerar coisas maiores. Tudo começa pequeno. Um erro abafado. Um limite que não vem. Uma consequência que não acontece. Até que, em algum momento, o estrago já não é reversível.

O caso do Orelha não tem a escala de um escândalo corporativo internacional. Mas ele carrega a mesma lógica. A lógica de que o poder pode tudo. De que influência protege. De que o erro pode ser empurrado para debaixo do tapete.

O que está em jogo aqui não é só justiça por um cachorro. É formação. É liderança. É responsabilidade.

Pais formam líderes antes que o mundo precise lidar com eles. E toda vez que um erro grave é tratado como detalhe, alguém está sendo treinado para errar de novo.

E a pergunta que fica, pra mim, é simples e incômoda: que tipo de líder nasce quando ninguém aprende que todo ato tem consequência?

Por Camila Farani/Estadão
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