Dono do Master criou estrutura jurídica nos EUA com ex-noiva como beneficiária, na qual está casa de mais de R$ 450 milhões em Miami, além de tê-la presenteado com itens de alto valor; procurada, defesa de Martha não comentou
Daniel Vorcaro e Martha Graeff em post no Instagram. | 📷 Reprodução/Instagram de Martha GraeffDaniel Vorcaro transferiu bens para sua ex-noiva Martha Graeff, que podem superar os US$ 100 milhões (ou mais de R$ 520 milhões). Na troca de conversa entre ambos, entregue à CPI do INSS, Vorcaro aponta ter cuidado da abertura uma estrutura de proteção patrimonial comum nos EUA, conhecida por trust, no nome de Martha. Pelas conversas, também se depreende que o principal bem do trust é a mansão em Bay Point, em Miami, comprada por US$ 86,5 milhões (o equivalente a mais de R$ 450 milhões).
Vorcaro, que era o controlador do Banco Master, investiu ainda US$ 10 milhões na Happy Aging, a empresa de produtos para “envelhecimento saudável” que Martha anunciava no Instagram e da qual era sócia. Outros bens de alto valor presenteados a ela são citados nas conversas. Pela legislação, se ficar comprovado que os bens foram fruto de desvio de recursos, eles podem ser apreendidos (leia mais abaixo).
Procurada, a defesa de Martha não respondeu a perguntas sobre o trust ou os bens. Na semana passada, ela soltou um comunicado no qual buscou se desvincular do ex-banqueiro, dizendo que tinham terminado o relacionamento havia meses.
Na quinta-feira, a CPI aprovou a convocação de Martha e diretores do Banco Master para prestar esclarecimentos na investigação conduzida pelo Congresso.
Casa em Miami

Mansão em Miami: de frente para a baía. | 📷 Reprodução/realtor.com
Em dezembro de 2024, Vorcaro solicitou que Martha passasse os dados de seu passaporte brasileiro para seus assistentes, para dar entrada na abertura do trust em nome dela. As conversas mostram que eles haviam visitado várias casas até fechar a compra da de Bay Point, em outubro daquele ano. Vorcaro confirmou, nas mensagens, que o trust foi aberto para que Martha figurasse como beneficiária, permitindo que ela gerenciasse o que ele chamou de “nossos ativos”.
Em julho do ano seguinte, Martha teve acesso à documentação do trust e ficou confusa. Entendeu que a propriedade do imóvel por meio de um trust poderia ser revogada e que ela poderia deixar de ser beneficiária do imóvel a qualquer momento. Vorcaro ficou irritado com as dúvidas dela, ao que a influenciadora respondeu: “Amor eu sou traumatizada. Eu nunca tive nada no meu nome. Ainda estou trabalhando pra comprar uma casa. Eu preciso entender e me sentir à vontade de perguntar (sic)”, escreveu ela.
A reação de Vorcaro foi novamente de irritação, classificando as dúvidas como “surreais”, com o argumento de que não faria sentido colocar a casa no nome dela para depois retirá-la. Diante da insistência de Martha em entender a estrutura, ele sugeriu que ela “esquecesse o assunto” para manter a paz no relacionamento do casal.
Em diversos momentos das conversas, Vorcaro reiterou que a casa é de ambos. Quando a inspeção da mansão em Miami foi aprovada, Martha perguntou quando ele a compraria, e Daniel respondeu imediatamente: “Eu não, nós”. Em outra ocasião, ele reforçou: “Escolhemos e compramos juntos”. Ele justifica essa visão de patrimônio compartilhado afirmando que, para ele, os dois agora são “um só”.
Martha participou ativamente do projeto de reforma e da decoração, coordenando os trabalhos com os arquitetos Kiko Sobrino (também responsável pelo hotel atribuído a Vorcaro em Campos do Jordão) e Patrícia Anastassiadis. Deu ideias, aprovou plantas para a academia particular e pediu uma espaço específico para ioga e equipamentos da marca Peloton, de alto luxo, bem como para a construção de uma quadra de padel.
Ambos escolheram peças para a casa, com a discussão sobre a aquisição de obras de Jean-Michel Basquiat, Adriana Varejão e Os Gêmeos. Ela também adquiriu bens para a casa. Numa viagem a Paris, comprou um jogo de jantar de porcelana por € 7,5 mil (cerca de R$ 45 mil).
Por conta do tamanho da reforma na casa em Bay Point, que quando pronta passaria a valer mais de US$ 100 milhões, segundo Vorcaro, ambos alugaram um apartamento no complexo hoteleiro Four Seasons Surfside, também em Miami, por dois anos. É um apartamento de quase 700 m², com dez quartos e aluguel de US$ 200 mil mensais.
O casal chegou a conversar sobre a possibilidade de a locação ser feita no nome da empresa de Martha, a Graeff Holdings LLC, mas ela expressou o temor de complicações fiscais e contábeis e ele acabou assinando o contrato por uma de suas empresas.
Todas as despesas do apartamento são faturadas para a Oceanview Ltda, com sede nas Bahamas, para minimizar a carga tributária incidente sobre o casal, por orientação de Vorcaro, segundo as conversas.
Até a semana passada, Martha continuava morando no Four Seasons. Perguntada sobre o tema, a defesa da influenciadora falou que ela estaria se mudando, apesar de ter dito que o relacionamento entre ambos teria terminado “há meses”.
Vorcaro também comprou carros e outros bens de alto valor para Martha. Entre os automóveis deixados com ela em Miami estão um Rolls Royce Cullinan (que pode ultrapassar os US$ 500 mil), uma Mercedes-Benz G-Wagon (que começa em US$ 150 mil) e um Land Rover Defender Vintage (também em torno de US$ 150 mil).
Além disso, Vorcaro também entregou a Martha cartões de crédito sem limite, para que ela os utilizasse em “absolutamente tudo”, incluindo despesas pessoais, roupas e viagens. Também há menções constantes ao envio de valores em dinheiro para o cofre de Martha em Miami para o pagamento de funcionários e despesas imediatas.
Martha também recebeu de Vorcaro diversas peças de alta joalheria. Nas conversas, há vários agradecimentos sobre braceletes e colares de diamantes, bem como citação a uma coleção de relógios. Entre eles, um Audemars Piguet edição limitada, avaliado em US$ 245 mil. Martha relatou que os funcionários da própria loja da marca ficaram impressionados ao verem o relógio em seu pulso.
“Agora chega amor! Já tenho a coleção dos relógios mais lindos (sic)”, escreveu ela, ao ver chegarem relógios em diferentes cores do mesmo modelo, todos de alto luxo. Vorcaro incentivou Martha a ficar com as peças, já que a versão em prata, por exemplo, combinaria com suas pulseiras de diamante e bolsas.
Vestidos de noiva em provas
Bolsas icônicas também entram na lista de presentes. Entre elas, os modelos Birkin, da Hermès (sendo uma delas comprada por € 11 mil), Kelly (também da Hermès, que sai por US$ 15 mil) e YSL. Martha fez posts com muitos desses presentes. Em uma delas, aparece com um relógio Richard Mille Carbon, cujo preço começa em US$ 200 mil.
Para seu aniversário de 40 anos, Martha escolheu um conjunto Valentino, de US$ 35 mil, e chegou a hesitar frente ao preço, mas Vorcaro a incentiva a comprar, descrevendo a peça como “de princesa”. Ela chegou a provar vestidos de noiva da marca Schiaparelli Couture e ele sugeriu também que ela tente conhecer os modelos na Dolce & Gabbana.
As conversas também falam de um barco que está sendo construído na Alemanha, por US$ 100 milhões, que se chamará Martha. A previsão de entrega é em 2026. Num dos relatos, Vorcaro diz que um investidor do Oriente Médio ofereceu pagar mais de US$ 100 milhões, além do que ele já tinha gasto. Mas ele responde, brincando, que “ninguém leva o Martha”. Também afirma que a existência do iate não teria propósito sem ela, usando a expressão: “Não faz sentido o Martha sem a dona Martha”.
Em relação aos investimentos feitos na Happy Aging, o plano inicial era que Vorcaro investisse US$ 5 milhões e um fundo de investimentos entrasse com mais US$ 5 milhões. Em maio de 2025, numa das conversas, Vorcaro diz que o fundo estava “enrolando” para finalizar o aporte e ele cobriria a rodada inteira de investimentos, no valor de US$ 10 milhões. Com isso, Martha teria um porcentual maior da empresa, o que permitiria trazer investidores externos apenas quando a Happy Aging atingisse um patamar maior de valor de mercado.
Os recursos seriam usados para sustentar a expansão internacional da marca, como uma experiência de hospedagem num hotel em St. Barths, no Caribe. Também uma parceria para a entrada na rede de cafés Pura Vida.
Bens podem ser vendidos
Segundo Paulo Henrique Carnaúba, professor do Insper e especialista em fraudes forenses, caso seja efetivamente comprovado que os bens transferidos a Martha foram produto de desvio, eles podem ser apreendidos e serem vendidos para recuperar os recursos das pessoas lesadas pela liquidação do banco.
Ele cita como exemplo o caso do Banco Santos, em que parte da Edemar Collection, que pertenciam ao controlador da instituição, Edemar Cid Ferreira, chegou a ser enviada aos EUA, foi apreendida e leiloada. Havia esculturas de Henry Moore, Anish Kapoor e quadros de Jean-Michel Basquiat e Serge Poliakoff, entre outros.
“Se as joias, obras de arte ou qualquer bem for adquirido com recursos advindos de fraudes, os prejudicados podem reivindicar o bloqueio e a repatriação do bem para que seja vendido e o prejuízo ressarcido, independentemente se foi dado de presente a quem quer que seja”, diz Carnaúba. “Caso o Banco Master vá à falência por insolvência, uma hipótese provável, aí caberá ao administrador judicial buscar e reivindicar os bens em benefício dos credores − como o Fundo Garantidor de Créditos por exemplo, como aconteceu no Banco Santos."
De acordo com ele, apenas no caso de os bens produto de fraudes tenham sido comprados por terceiro de boa-fé, que não sabia da origem, é que há a possibilidade de o bem não ser devolvido. “Mas aí os recursos com a venda serão bloqueados para pagar os prejudicados.”
O liquidante do Banco Master já informou à Justiça dos EUA, na semana passada, que Vorcaro havia comprado um Picasso por US$ 6,4 milhões, que o ex-banqueiro tentou vender por US$ 8 milhões pouco antes de o Banco Central (BC) decretar a liquidação do Master. Há também duas obras de Basquiat, um avaliado em US$ 5 milhões e outro, em US$ 4,5 milhões.
O objetivo do liquidante foi fundamentar a necessidade das investigações nos EUA e provar o desvio de recursos da massa falida, por meio de estruturas de ocultação patrimonial. A casa de Bay Point também entrou na lista de bens de Vorcaro no exterior citada pelo liquidante.

