Caiado oficializou pré-candidatura pelo PSD nesta segunda-feira (30/3). | 📷 Matheus Leite/BBC
A confirmação pelo PSD da pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado coloca em cena duas faces complementares da direita que são desafios para o PT enfrentar: o “herdeiro” e o “xerife”. Na prática, a presença de Caiado e do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da corrida ao Planalto cria um cenário de 2x1 contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ambos compartilham um antipetismo visceral, mas operam em frequências distintas. Flávio mobiliza a base fiel, o “voto de coração” e o legado da família. Caiado foca no eleitorado conservador pragmático, pautando o debate no calcanhar de Aquiles do atual governo que é a segurança pública e o combate à corrupção.
Ao adotar o discurso do “modelo Goiás” de segurança — onde o próprio Caiado costuma repetir que “bandido não se cria” —, o governador atrai o voto da classe média e de setores produtivos que prefiram um perfil mais institucional e experiente que o bolsonarismo raiz.
Por ora, no entanto, ao considerar seu baixo desempenho nos levantamentos de intenção de voto, Ronaldo Caiado configura mais como uma linha auxiliar de Flávio do que como um candidato viável.
Alguns chegam a apostar, inclusive que, se o quadro eleitoral apontasse uma vitória segura da direita este ano, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, poderia considerar a composição da chapa como vice. Algo descartado publicamente no momento.
Na Paraná Pesquisas divulgada nesta segunda-feira, 30, Flávio Bolsonaro aparece com 45,2% contra 44,1% de Lula em eventual segundo turno. Caiado, embora com intenção de voto menor no primeiro turno (cerca de 3,6%), possui a menor rejeição entre os principais candidatos, o que o torna um agregador de votos de centro-direita.
Diferentemente, porém, de figuras folclóricas ou candidaturas de ocasião — como o fenômeno Padre Kelmon de 2022 —, o governador leva à mesa o peso de sua biografia política. Ex-deputado, ex-senador e governador reeleito com aprovação histórica em Goiás (beirando os 88% em levantamentos recentes), o político goiano não é um figurante.
Caiado não se apresenta na disputa para ficar à sombra. Ele deixou claro isso ao presidente do PSD, desde o momento que decidiu se filiar à legenda e também na sua entrevista coletiva nesta segunda-feira, 30. O goiano está disposto a brigar por cada voto conservador.
Mas alguns estrategistas do PT apostam numa fragmentação da direita que possa favorecer Lula e até gerar embates de Caiado e Flávio. Uma frase do goiano, nesta segunda-feira, deu ânimo aos petistas nessa direção. Foi quando ele disse que “o desafio não é ganhar a eleição do PT apenas”, mas saber governar sem permitir o retorno do PT - como ocorreu após o governo Bolsonaro - embora não tenha feito essa menção diretamente.
“O difícil é governar, para que o PT não seja mais opção no País... É esta a maior relevância do momento. Ganhar não é a maior dificuldade. Vamos ganhar. Agora, vai saber governar ou vai querer aprender a governar na cadeira? É diferente”, disse Caiado.
Seu histórico político e alianças mostram que sua artilharia tem alvo fixo: o PT e o presidente Lula.
Caiado foi eleito na esteira do bolsonarismo em 2018 e, apesar do distanciamento pontual durante a pandemia, os laços ideológicos permanecem intactos. Em um eventual segundo turno, a união entre os dois é dada como certa.
Além disso, há mais um meandro de análise kassabiana nos bastidores. Se a candidatura Flávio ficar fragilizada diante de ataques pesados do PT ao ponto de desgastar sua viabilidade, o eleitor de direita encontrará em Caiado um caminho.
O PSD ainda tem de viabilizar sua candidatura e escolher um vice. Para manter o pé em cada canoa, um caminho seria negociar a composição com o MDB, que também costuma integrar todos os governos. Com chapa própria, é mais fácil negociar o palanque do segundo turno.
Por Roseann Kennedy/Estadão
