A conivência masculina com o abuso de seus pares reverbera na morte de milhares de mulheres, na sensação de abandono que elas têm diante de leis defendidas por uma maioria de homens.
Muitos anos
atrás eu estava sentado em uma lanchonete perto da faculdade e um rapaz,
aparentando 23 ou 24 anos gritava com
uma garota. Eu e todos os outros homens do lugar ficamos olhando. A garota
saiu chorando e o rapaz entrou na lanchonete e sentou em uma mesa onde havia
outros homens esperando. A conversa iniciou e prosseguiu animada como se nada
errado tivesse acontecido.
Esse é o
exemplo mais brando que posso dar sem criar um gatilho em mulheres que sofreram abuso. Mas sobre como as mulheres
tem lutado para acabar com o ciclo de violência que machuca e dilacera geração
após geração, minhas colegas podem dissertar com muito mais propriedade e
primor. Quero falar sobre a necessidade
dos homens começarem a responsabilizar outros homens.
O mundo masculino tem como uma das
bases um corporativismo tóxico que acena condescendente para a violência que permeia a
existência do homem na sociedade. Toda vez que uma mulher é agredida e
estuprada, muito se vê de promessas sobre como se reagiria se estivesse
presente, mas entre amigos os abusos sutis viram graça e são perdoados como
brincadeiras inocentes que não fazem parte de uma dinâmica perversa que coloca as mulheres como subalternas nas
relações.
Homens precisam censurar outros
homens. Precisam
dizer que virar o pescoço para olhar a bunda de uma moça que passa é escroto,
precisam pedir aos amigos que não cometem assoviem mais para garotas em pontos
de ônibus, portas de escola. Não cabe mais deixar a educação anti-machista para
mulheres. Elas já se desgastam mais tentando se defender e ainda precisam
ensinar constantemente algo que já deveria ser óbvio. É como pedir para os
brancos não serem racistas enquanto eles chutam a cara de pessoas pretas.
A
necessidade de pertencer a uma tribo faz com que muitos de nós, homens, não
tomem atitudes enérgicas diante de outro homem praticando assédio. Ainda que
não se ache assediador, concorda de forma silenciosa com o abuso dos seus. O
medo de ser censurado ou de ser acusado por ações passadas fala mais alto que
um princípio moral que deveria ser primário: o direito de a mulher não ser
violentada psicológica e fisicamente.
Esse pacto
silencioso é tão enraizado que ao assediar a mulher e descobrir que essa tem um
relacionamento, os homens dirigem suas desculpas para o parceiro e não para a
agredida. Oras, você tem que pedir desculpa para quem feriu. Se acontecer
contigo, não aceite as desculpas. Peça para pedirem desculpas diretamente à sua
parceira.
Apesar da homofobia latente entre em
nossa sociedade, grupos de homens mantêm relações estritamente homoafetivas,
ainda que não percebam. Eles têm homens como ídolos e referência em todas as áreas. Eles se
escutam e se respeitam e dirigem amor aos grupos aos quais pertencem e isso tem
de começar a ser usado como fonte de educação e (por que não?) Constrangimento.
Se alguém
questionar o abraço sem intenções sexuais em uma querida amiga, é preciso dizer
“eu admiro essa mulher e ela é apenas
minha amiga”. Nada de aproveitar a oportunidade para respostas evasivas que
deixem no ar que algo que não está acontecendo esteja acontecendo.
Fazendo um
recorde racial necessário, os homens negros necessitam ainda mais desfazer
noções de masculinidade criados e construídos por um patriarcado branco que
joga mulheres pretas para a última camada da pirâmide social, onde são tratadas
como objetos descartáveis por homens brancos e também por homens pretos. A forma como os negros encaram a própria
masculinidade precisa se dissociar da construção social histórica feita pelos
brancos. Na condição de homem preto, o indivíduo precisa olhar com empatia a
mulher preta, enxergar o sofrimento comum que é o racismo estrutural e a
segunda dor, do machismo potencializado contra elas e que, ainda que não
pareça, também atinge o homem negro.
Esse
contrato torto de se manter em silêncio diante de situações violentas sai do
cotidiano das conversas de bar e chega no atendimento precário que policiais
dão para mulheres que chegam às delegacias para denunciar agressões. Chegam nas
cortes, na decisão de juízes que não protegem as vítimas. Você confiaria em
instituições formadas por pessoas que se calam diante da má conduta de amigos?
Homens precisam responsabilizar
outros homens abertamente. Sem medo, sem autocensura, sem se isentar de
responsabilidade. E
isso deve se estender para além do desrespeito apenas com mulheres do seu
círculo familiar.
Responsabilizar
e aceitar quando responsabilizados, aprender e mudar.
📷 Divulgação
Por Aquiles Marchel Argolo/Mundo Negro


