AUTISMO | Por que a sensação de bem-estar dos autistas com altas habilidades tende a ser menor do que os autistas nível 3 de suporte?

A dupla excepcionalidade é um tema que tem ganhado visibilidade recentemente, mas que ainda carece de clareza conceitual para o grande público. A psicóloga e mestre em saúde Andressa Antunes explica que essa condição ocorre quando uma pessoa apresentar, simultaneamente, um transtorno ou deficiência, como Autismo ou TDAH, e altas habilidades ou superdotação.

Ao contrário do que diz o senso comum diz, a sensação de bem-estar dos autistas com altas habilidades tende a ser menor do que os autistas nível 3 de suporte. Isso ocorre porque, como pondera Andressa Antunes, “o autismo nível 3, que normalmente está associado com deficiência intelectual, tem cara. É a pessoa que vai chegar em qualquer ambiente e a pessoa vai perceber que ela é diferente. Automaticamente, você lida com o autista nível 3 de suporte de forma diferente, muitas vezes oferecendo mais suporte. Porque está na cara. O autista nível 1 seria esse autismo que não é tão perceptível e, quando ele tem também altas habilidades, o autismo não só não está na cara, como do ponto de vista de produção, a pessoa faz muito. Ninguém reconhece que essa pessoa precisa de suporte.

“Então, a falta de suporte para o autismo nível 1, que costuma estar junto com as altas habilidades, está associada a um altíssimo nível de sofrimento. Sensação mais baixa de bem-estar. Aumento de sintomas de ansiedade e depressão. Em casos mais extremos, ideação ou tentativa de autoextermínio. Então, as altas habilidades mascaram. E ao mascarar, o contexto não auxilia essa pessoa. Então é algo que, do ponto de vista de saúde mental, é muito importante os profissionais ficarem de olho e não olhar só para o que a pessoa faz. Mas como ela faz, o custo para fazer dessa maneira. Porque o problema está normalmente aí.”, observa a psicóloga.

O que são Altas Habilidades?

Diferente do que se acredita popularmente, as altas habilidades não são um diagnóstico de saúde mental, mas sim um conceito originado na área da educação. Elas referem-se a uma capacidade superior de aprendizagem, memorização e resolução de problemas.

Antigamente, utilizava-se o termo “superdotação” com um foco mais genético e inato. Hoje, prefere-se o termo “altas habilidades” para destacar que o contexto e os estímulos do ambiente são cruciais para que esse potencial se manifeste. Assim, uma pessoa com o mesmo potencial genético pode expressar suas habilidades de formas diferentes dependendo das oportunidades que recebe.

Como identificar? O Modelo dos Três Anéis

A identificação das altas habilidades vai muito além de um simples teste de QI. Isso porque, embora um QI acima de 130 seja um indício, os profissionais utilizam o Modelo dos Três Anéis de Joseph Renzulli. Ele considera a união de três fatores:

* Desempenho acima da média: Facilidade intelectual e rapidez de processamento.
* Criatividade: Uma forma original e autodidata de aprender e encontrar soluções
* Motivação: Um interesse genuíno e engajamento interno profundo pela atividade ou tema.

O Desafio do Mascaramento na Dupla Excepcionalidade: a sensação de bem-estar dos autistas com altas habilidades tende a ser menor do que os autistas nível 3 de suporte

O ponto mais crítico da dupla excepcionalidade é o mascaramento. Afinal, em muitos casos, a alta capacidade intelectual da pessoa “esconde” os desafios do autismo ou do TDAH.

Pessoas com Autismo Nível 1 e Altas Habilidades costumam ser extremamente produtivas e bem-sucedidas profissionalmente. Isso leva a sociedade (e até profissionais de saúde) a negligenciar suas necessidades de suporte. Assim, o custo para manter essa performance “nota 10” costuma ser invisível:
  • Sobrecarga sensorial extrema no ambiente de trabalho.
  • Acúmulo de estresse por passar por cima de padrões de rigidez cognitiva.
  • Falta de suporte, já que a pessoa “parece” não precisar de ajuda por ser inteligente
Este cenário está frequentemente associado a níveis baixos de bem-estar, ansiedade severa, depressão e até riscos de esgotamento (burnout).

Conclusão: O Olhar Além da Performance

A psicoterapia para indivíduos com este perfil deve focar não apenas no que a pessoa faz, mas em como ela faz e qual o custo emocional e sensorial envolvido. É essencial reconhecer que ser “funcional” aos olhos da sociedade não significa estar bem internamente.


Por Sophia Mendonça
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